segunda-feira, 16 de Novembro de 2009

Branford Marsalis tocado por Amália Rodrigues e vice-versa

O Guimarães Jazz, prestando homenagem aos 50 anos do disco “Kind of Blue” (1959) considerado o melhor do jazz, reuniu no mesmo cartaz alguns dos mais conceituados músicos a nível mundial. Jimmy Cobb, o baterista de “Kind of Blue”, abriu as portas à saudade; Hank Jones, pianista em algumas formações de Miles, foi a história em pessoa.
Em vez da saudade e da história, optei pelo futuro. Na impossibilidade de ir a todos escolhi o concerto de Brandford Marsalis Quartet. Casa cheia no Centro Cultural Vila Flor. Brandford Marsalis ofereceu generosamente os temas do último álbum “Metamorphosen”, deixando brilhar a banda.
Quero sublinhar apenas alguns gestos do saxofonista norte-americano: Foi magnânimo na duração do concerto; Tentou sempre falar português; No final presenteou a audiência com o tema “Foi Deus” de Amália Rodrigues com um solo notável de saxofone soprano, simplesmente sublinhado pelo baixo e piano; e, de saída, apresentou um medley de música do Luisiana, uma espécie de regresso a casa com um forte aroma de blues. São pequenos gestos que definem os grandes homens.

quarta-feira, 11 de Novembro de 2009

Delirante!

Vejam este sketch. Sem preconceitos. Nem formatações. É uma representação delirante de Pedro Alves (Zeca Estacionâncio) e João Paulo Rodrigues (Quim Roscas) no intragável Praça da Alegria da RTP, em Abril de 2008.
O exercício de humor desenvolvido por aquela dupla, naquela altura, tinha algumas características curiosas: a minuciosa recriação de uma localidade - Curral de Moinas -, relevando com exagero, a ruralidade com tiques de progresso adaptado; a caricaturização dos trejeitos dos piovots dos jornais televisivos; a crítica aos critérios jornalísticos através da adaptação desses critérios, vigentes no país das notícias, aos acontecimentos de Curral de Moinas; a crítica social e de costumes sempre presente no texto delirante.
Esta prova de vinhos é do melhor que se pode ver. Na net que no meio da Praça da Alegria, ou no actual formato, em horário nobre, não faz qualquer sentido.

sexta-feira, 6 de Novembro de 2009

E à página 82 Saramago descansou!

(...) O leitor leu bem, o senhor ordenou a abraão que lhe sacrificasse o próprio filho, com a maior simplicidade o fez, como quem pede um copo de água quando tem sede, o que significa que era costume seu, e muito arreigado. O lógico, o natural, o simplesmente humano seria que abraão tivesse mandado o senhor à merda, mas não foi assim. Na manhã seguinte, o desnaturado pai levantou-se cedo para pôr os arreios no burro, preparou a lenha para o fogo do sacrifício e pôs-se a caminho para o lugar que o senhor lhe indicara, levando consigo dois criados e o seu filho isaac. No terceiro dia de viagem, abraão viu ao longe o lugar referido. Disse então aos criados, Fiquem aqui com o burro que eu vou até lá adiante com o menino, para adorarmos o senhor e depois voltamos para junto de vocês. Quer dizer, além de tão filho da puta como o senhor, abrão era um refinado mentiroso, pronto a enganar qualquer um com a sua língua bífida, que, neste caso, segundo o dicionário privado do narador desta história, significa traiçoeira, pérfida, aleivosa, desleal e outras lindezas semelhantes. (...)

O leitor leu bem. José Saramago conseguiu mandar o senhor à merda e chamar-lhe filho da puta, na página 82 do livro Caim. Depois de ter conseguido tal proeza, o vetusto escritor resolveu descansar. Estava contente com a sua obra. É certo que ainda não tinha o número de páginas suficientes para o último livro de um prémio nobel, mas o objectivo principal estava atingido.
Que Saramago não seja católico, que considere a Bíblia um manual de maus costumes, que tenha opiniões e convicções ideológicas que esbarrem na doutrina cristã, não traz mal nenhum ao mundo. O que é lamentável é o exercício pífio e rasteiro que o reputado escritor usou para parodiar o livro sagrado e promover as vendas. Confesso que esperava mais elevação e inteligência. E foi por isso que fiquei desiludido. A estrutura do livro, para além de ridicularizar as cenas bíblicas que mais lhe dão jeito, usa, para isso, um artificialismo de iniciado na literatura: as viagens na máquina do tempo. O livro arrasta-se à procura das cenas mais caricatas, usando uma argumentação digna de mentecaptos, embrulhada no discuro narrativo típico de Saramago.
Caim seria, quando muito, um bom primeiro livro de Saramago.
Por isso, perdoai-lhes senhores que ele não sabe o que escreveu...

terça-feira, 30 de Junho de 2009

Está bem assim?

Vadio e meigo. O gato siamês orfão teve a sorte de ter nascido cheio de graça. Não morreu vítima da ordem que rege a sobrevivência das espécies e foi adoptado. Inocente, retribui a ventura com uma graciosidade espontânea interagindo com os humanos como se fosse um deles. A beleza sobrevive mais ao infortúnio. Darwin devia saber disso... Quem é capaz de maltratar um olhar como este?

quarta-feira, 24 de Junho de 2009

Estrelas ascendentes

Cada um dos símbolos sanjoaninos cumpre uma função na noite mais longa do Porto. Não se imagina o S. João sem os ruidosos martelinhos, sem a graciosidade do alho-porro, sem os aromas do mangerico, sem o céu estrelado de balões. Não há noite de S. João sem as estrelas ascendentes que transportam os sonhos de milhares de portuenses e os incendeiam perto do céu…

terça-feira, 23 de Junho de 2009

Pistoleiro Ronaldo

Ainda que a inteligência se tenha alojado nos pés de Cristiano Ronaldo não consigo descortinar a ideia que lhe passou pela cabeça quando decidiu aparecer aos jornalistas e, portanto, à Península Ibérica, com uma t-shirt com um revólver estampado. Pode pensar-se que a exibição do ícone não tem qualquer relevância, mas a teoria cai pela base quando se sabe quanto custa a utilização publicitária de um qualquer recanto do corpo do melhor jogador de futebol do mundo. Pode, de facto, não lhe ter passado nada pela cabeça e ter pegado na t-shirt armamentista que estava mais à mão. Mesmo assim, alguém do séquito de familiares e amigos devia tê-lo avisado que o símbolo não seria apropriado.
Tendo a pensar que não foi inocente. Cristiano Ronaldo, depois das aventuras na América com a Paris Hilton, resolveu vir descansar para o Algarve. Os fotógrafos e jornalistas acamparam à porta da milionária mansão à espera de novidades, incomodando a tranquilidade do craque. Depois do incómodo ter dado azo à irritação, Ronaldo decidiu aparecer, falar e chegar a acordo com os delegados dos orgãos de comunicação social para que lhe desamparassem a loja logo depois da conferência de imprensa.
A pistola estampada no peito é uma ameaça: se não cumprirem o acordo Ronaldo pode recorrer à força. Não seria sequer pioneiro. Maradona, o melhor jogador de futebol de sempre, tentou um dia afastar os jornalistas da porta da vivenda a tiros espingarda de pressão de ar.
Foto do JN

segunda-feira, 8 de Junho de 2009

Partido da abstenção

O dado mais interessante das eleições europeias, em Portugal, é o valor dos votos em branco: 4,63%. Mais de 160 mil eleitores deram-se ao trabalho e ao incómodo de se dirigirem à sua mesa de voto, simularem o preenchimento do boletim, com a respectiva cruzinha, e fingirem, no momento de enfiarem o voto na ranhura, que no papel dobrado estava o rabisco cruzado da escolha. Acho todo este comportamento indigno. Os eleitores merecem mais respeito. Se não fosse a obrigatoriedade deste comportamento mentiroso, muitos mais teriam votado no não voto. Por isso proponho desde já a formação de um novo partido que redima da vergonha os não votantes militantes e eleja os deputados a que tem direito: PA - PARTIDO DA ABSTENÇÃO. Afinal de contas, mesmo sem qualquer campanha, seria já a sexta força partidária do país. E tem espaço para crescer.

quinta-feira, 4 de Junho de 2009

Púcaros de Poesia

É um bar, em Miragaia, no Porto, e não sei porque se chama Púcaros. O nome faz lembrar, quando muito, um restaurante. A alusão ao significado copo é a ligação mais directa ao espaço nocturno. Pode ser que por aí se faça a conotação. Mas, normalmente, púcaro é um copo para tirar água. Bem, talvez aluda ao local onde se descobrem verdades escondidas, o sítio onde os nabos se tiram do púcaro, ou da púcara.
Não faço ideia porque se chama assim ainda para mais sendo um bar onde, às quartas-feiras, a poesia anda à solta pelo meio dos sentidos, sentimentos, corpos e copos...
É isso!!! Púcaros são os recipientes usados pelos estranhos seres que frequentam o bar, nesse dia, para tirar sorvos poéticos do poço da literatura. Eles são bruxas, elfos, vampiros, gnomos, ninfas, unicórnios, querubins, anjos, lobisomens e outros que tais, disfarçados de gente comum.
Eles devem ter obrigado o Carlos a chamar-lhe assim para que lhes sejam servidas as poções mágicas do pote da sangria. O Carlos é o dono do Púcaros. Um rezingão divertido que surpreende os incautos com cumprimentos brejeiros, alusões eróticas e palavrões com sotaque da Ribeira. “Onde me sento, Carlos?”, pergunto. “Alapa-te p’ra aí onde os colhões te deixarem”, responde de chofre e sublinha: "É bom sinal… é porque os tens!”. Uma capa de taberneiro com a qual esconde uma sensibilidade de leitor devotado aos poetas clientes. O Carlos é o guardião do clube dos poetas. Tem o poder de tocar a sineta com que manda calar toda a gente para que as arcadas fiquem prenhes de texto poético. Lido, declamado, interpretado, gritado, sofrido, definhado, exalado, exaurido, vomitado, disparado…o modo é o que menos interessa. Estou convencido que aqueles seres não existem de dia. Acham que pode existir alguém que escreve cartas ao primeiro-ministro e passa os dias a registar poemas dedicados às gajas boas que se sentam na esplanada do Piolho? E o declamador catastrofista que cria ambientes tétricos e quase regorgita sofrimento? E o boémio que interpreta textos em espanhol e acaba a cantar o La bohème, do Aznavour, num francês de ouvido? E o espanhol que tenta dizer poesia em português como se fosse sua a língua de Camões? E a avó, sempre impecavelmente vestida, que serve poemas como se lhe saíssem das entranhas? E o escritor erudito que escolhe os temas e espicaça os estreantes com a poetrix? E o pintor cujos retratos quase nunca saem bem? E…
Não…a mim não me enganam. Aqueles seres não existem. Estão possuídos pelo espírito livre da poesia e transformam-se, às quartas, mal toca a sineta. São, de certeza, empregados de escritório, juízes, advogados, médicos, fiscais das finanças, técnicos, empresários, vendedores…
O Púcaros é, também ele, um mutante. Ora se enfeita de antiguidades e velharias; ora se veste de exposições de pintura; ora se metamorfoseia em palco de teatro, ou em pista de dança do ventre ou de salão.
Tenho lá ido ultimamente. Observo como se estivesse num jardim zoológico em que me foi permitido entrar na jaula dos humanos. Dei por mim a zurrar poesia como se fosse um deles. E, uma destas noites, quando cheguei a casa olhei para o espelho e não me vi. Metade de mim tinha desaparecido…

segunda-feira, 11 de Maio de 2009

A magia de Serralves

Serralves. Arte. Criatividade. Competência. Imaginação. Cultura. Escola. Vida.
Um filme que é um pequeno exemplo de como, na animação, se pode, e deve, aprender fazendo.
Serralves. Magia.

Azul outra vez!

Os rios de gente pintalgada de azul desaguavam nas entradas do estádio do Dragão. O amor ao clube pôs-se à janela. Moldou-se em peças de roupa, chapéus de todos os feitios, pinturas faciais, bonecos, bandeiras, cachecóis. Tudo serve para demonstrar o orgulho de ser portista nas vésperas da confirmação do tetracampeonato do F. C. do Porto.
Ricardo atou o cachecol à cabeça. Dava-lhe um ar de pequeno adepto e fingia de protecção contra os pingos de chuva. Com apenas dez anos é portista desde pequenino. Vive mesmo ao lado do estádio do Dragão. Com o jogo prestes a começar, a verdadeira mostra de fé no clube estava no azul dos olhos. Reflectiam a cor dominante da multidão apressada, misturada com uma angústia muito mal diluída. Estava à porta de um desejo. E não tinha bilhete para testemunhar a conquista do título.
-Gostavas de ver o Porto, hoje, não gostavas?
- Pois gostava. Só fui ver o Porto duas vezes. Perdeu uma e empatou outra. Mas vamos ser campeões outra vez. Isso é que interessa.

Tenho a certeza que há lágrimas que correm para dentro! Azuis...

segunda-feira, 4 de Maio de 2009

Covão da Ametade

É uma daquelas paisagens que toda a gente fotografa. O Covão da Ametade é um parque da Serra da Estrela, atravessado pelo Rio Zêzere, em breve repouso, antes de se precipitar pela íngreme encosta. Já vi este lugar mágico pintado de branco, de cores pastel, de outono, de amarelo queimado.
Aí fica em azul gélido...

A Serra é uma Estrela

No inverno o mais frequente é que esteja com as veias de acesso cortadas, sobretudo as que levam confortavelmente até à torre. Cortadas por aneurismas gigantes de neve que coagula as lagoas, riachos, estradas, caminhos e passagens. No rigoroso inverno a Serra entra em coma; em hibernação alva e fria.
Liberta-se do entorpecimento aos primeiros raios de sol da primavera. E é vê-la a despir-se lentamente do véu e das grinaldas de gelo, adoptando decotes de verde para tapar o corpo da terra por onde escorre o suor da neve derretida.

A Serra é uma estrela...

sábado, 25 de Abril de 2009

Não deixem fechar a porta

Muita gente se queixa do esvaziamento a que, de ano para ano, é votada a memória da revolução do 25 de Abril de 1974. É sinal de que os que tiveram algum contacto com a mudança de regime estão a ficar velhos. Por mim falo que, na altura com 11 anos, me recordo apenas dos dois helicópteros militares que subitamente usaram o campo de futebol da nossa escola como pista de aviação. E sei que a primeira palavra que aprendi do novo léxico da democracia foi “greve”. O resto foi absorvido na derrocada da barragem da informação. As palavras da rádio e dos jornais narraram uma revolução quase sem mortos e feridos e com poucas imagens. Sobreviveu o sangue dos cravos como símbolo de uma mudança profunda no país.
35 anos depois, parece ser preciso regar a flor da revolução.

Era uma vez um país
onde entre o mar e a guerra
vivia o mais infeliz
dos povos à beira-terra.
(…)
Ora passou-se porém
que dentro de um povo escravo
alguém que lhe queria bem
um dia plantou um cravo.

Era a semente da esperança
feita de força e vontade
era ainda uma criança
mas já era a liberdade.
(…)
Ouvi banqueiros fascistas
agiotas do lazer
latifundiários machistas
balofos verbos de encher
e outras coisas em istas
que não cabe dizer aqui
que aos capitães progressistas
o povo deu o poder!
E se esse poder um dia
o quiser roubar alguém
não fica na burguesia
volta à barriga da mãe!
Volta à barriga da terra
que em boa hora o pariu
agora ninguém mais cerra
as portas que Abril abriu!

"As portas que Abril abriu"
José Carlos Ary dos Santos